Estrutura e Funcionamento do Sistema Nervoso
Percepcionar o mundo e orientarmo-nos nele, executar actos ajustados, ser amigo das pessoas, gozar o bom tempo e o sol, fazer projectos, desejar ir a uma festa, viver a vida e apreciar o que ela tem de bom, alimentar expectativas relativamente ao futuro – tudo isso implica o normal funcionamento de estruturas fisiológicas cujo controlo está a cargo do sistema nervoso. A análise do autor sugere que a compreensão destes mecanismos é fundamental para a psicologia, pois permite explicar como os processos biológicos subjazem às experiências subjectivas e aos comportamentos observáveis, desde as emoções mais simples até às decisões mais complexas.
Constituído por um conjunto de órgãos inter-relacionados, o sistema nervoso tem como função geral a coordenação dos processos que garantem o equilíbrio interno do organismo (homeostase) e o equilíbrio do ser humano no seio exterior. Em Moçambique, o autor infere que o conhecimento sobre o sistema nervoso é particularmente relevante para a compreensão de condições como o stress pós-traumático em populações afectadas por conflitos e desastres naturais, bem como para o desenvolvimento de estratégias de intervenção psicológica em contextos de vulnerabilidade.
Na sua actividade, o sistema nervoso dispõe de dois subsistemas fisiológicos que se designam por Sistema Nervoso Central (SNC) e Sistema Nervoso Periférico (SNP):
- Sistema Nervoso Central – desempenha essencialmente as tarefas associadas ao processamento e coordenação das informações. É constituído por duas estruturas nervosas: o cérebro e a espinal-medula. O cérebro é o órgão central do pensamento, da emoção e da consciência; a espinal-medula actua como via de comunicação entre o cérebro e o resto do corpo, além de coordenar reflexos simples.
- Sistema Nervoso Periférico – desempenha as tarefas ligadas à condução e à circulação das informações. Nele se inscrevem os nervos sensoriais, os motores e os mistos, que estabelecem a ligação entre o SNC e os órgãos e tecidos do corpo.
O Neurónio: a unidade básica do sistema nervoso
Desde os órgãos coordenadores aos condutores, todo o sistema nervoso é constituído por células nervosas, unidades básicas designadas por neurónio. Este, como as demais células, é formado por um corpo celular (soma), em cujo interior se situa o núcleo. Diferencia-se, no entanto, das outras células por uma série de prolongamentos que o constituem, a que se dá o nome de dendrites. Um deles alonga-se bastante em relação aos outros, chegando a apresentar alguns decímetros de comprimento: é o cilindro-eixo ou axónio, que termina num conjunto de ramificações parecidas com uma raiz, chamadas telodendrites. A análise do autor sugere que a complexidade da rede neuronal é comparável à rede de estradas e caminhos de uma grande cidade como Maputo, onde as dendrites seriam as ruas secundárias que recolhem informações, o axónio a via principal que conduz a mensagem, e as telodendrites as rotundas que distribuem a informação para os destinos finais.
Para (ABRUNHOSA & LEITÃO, 2009, p. 60), os neurónios apresentam duas propriedades importantes para compreender a circulação de mensagens:
- Excitabilidade – que lhes permite reagir a estímulos. Quando uma fibra nervosa é estimulada, modificam-se as suas características eléctricas, o que produz uma pequena corrente a transmitir a outro neurónio. Por exemplo, o toque numa superfície quente activa imediatamente os neurónios sensoriais, desencadeando uma resposta de retirada rápida, um mecanismo de protecção essencial para a sobrevivência.
- Condutibilidade – que lhes permite transmitir as excitações a outras células nervosas. A direcção normal das excitações implica a sua passagem das telodendrites de um axónio às dendrites do neurónio seguinte, estabelecendo uma cadeia de comunicação que pode envolver milhões de neurónios em fracções de segundo.
A Sinapse e a comunicação nervosa
Uma das funções dos neurónios é a condutibilidade, ou seja, a transmissão dos impulsos nervosos que, no seu conjunto, constituem o influxo nervoso (energia ou impulsos eléctricos que circulam nos neurónios). Os impulsos nervosos transitam das telodendrites de um neurónio às dendrites do seguinte, levando com elas as informações. Este processo é fundamental para todas as actividades cognitivas e comportamentais, desde a percepção sensorial até à tomada de decisão.
Não existe contacto físico ou continuidade entre as dendrites de um neurónio e as telodendrites do neurónio seguinte, mas uma ligação funcional, a que se dá o nome de sinapse. Entre as telodendrites de um axónio e a dendrite do neurónio seguinte existe um pequeno intervalo a que se dá o nome de fenda sináptica. A análise do autor sugere que a sinapse é análoga a uma conversa entre duas pessoas: o neurónio emissor "fala" (liberta neurotransmissores), o outro "ouve" (recebe os químicos) e a fenda sináptica é o espaço de ar entre eles, onde a comunicação acontece através de substâncias químicas em vez de ondas sonoras.
Nas extremidades do axónio existem pequenas vesículas com substâncias químicas, os neurotransmissores ou mensageiros químicos. No momento em que o influxo nervoso atinge o ponto sináptico, as vesículas lançam essas substâncias na fenda, cheia de partículas ionizadas, preenchendo o espaço intercelular ou sináptico. As partículas ionizadas actuam quimicamente sobre as paredes das dendrites do neurónio seguinte, cujo equilíbrio eléctrico fica momentaneamente alterado, absorvendo a informação transmitida. Em Moçambique, o autor infere que o estudo dos neurotransmissores é relevante para a compreensão de perturbações como a depressão e a ansiedade, que afectam uma parcela significativa da população, especialmente em contextos de pobreza e exclusão social.
Os nervos e a circulação da informação
Como órgão coordenador, o cérebro tem que "saber" o que se passa no organismo. Este conhecimento só é possível mediante a circulação da informação através dos nervos, que são um conjunto de fibras nervosas formadas por axónios e recobertas por uma membrana. Os nervos são, pois, as vias de circulação das mensagens entre o sistema nervoso central, os órgãos sensoriais, os músculos e as glândulas. Por exemplo, quando alguém em Matola coloca a mão no fogo, os nervos sensoriais transportam a informação da queimadura até ao cérebro em milésimos de segundo, e os nervos motores ordenam a retirada da mão, num arco reflexo que demonstra a eficiência do sistema.
A informação circula em três tipos de nervos, que fazem parte do sistema nervoso periférico:
- Nervos sensoriais (aferentes) – Transportam as informações dos órgãos sensoriais até a espinal-medula e ao cérebro, para aí serem processadas. Por exemplo, os nervos ópticos levam a informação visual dos olhos ao cérebro, permitindo a percepção do mundo exterior.
- Nervos motores (eferentes) – Transportam as impressões do sistema nervoso central para os órgãos periféricos, isto é, músculos e glândulas, permitindo a acção e a resposta ao ambiente.
- Nervos mistos – Transportam a informação da periferia para os órgãos centrais (cérebro e espinal-medula) e destes para os órgãos periféricos, combinando as funções sensoriais e motoras numa única via.
Cronaxia
Cronaxia é a velocidade com que uma célula nervosa pode excitar (ABRUNHOSA & LEITÃO, 2009, p. 63). Os neurónios não levam o mesmo tempo a reagir a estímulos, possuindo cronaxias diferentes. Porém, o influxo nervoso só transita de células para outras quando possuem a mesma cronaxia. A análise do autor sugere que este conceito é fundamental para compreender como o sistema nervoso selecciona as vias de comunicação mais adequadas para cada situação, como um sistema de "sincronização" que garante que a informação flui apenas entre neurónios que partilham a mesma "frequência".
Compete aos centros nervosos fazer com que as células nervosas fiquem com a mesma velocidade de excitação ou com velocidades de excitação diferentes. Os neurónios que ficam com a mesma rapidez de excitabilidade são aqueles por onde passa o influxo; os que ficam com rapidez de excitabilidade diferente são aqueles por onde o influxo não pode circular. Assim, os centros nervosos definem, pelas alterações que introduzem nas cronaxias, o trajecto que o influxo deve seguir. Este mecanismo é essencial para a aprendizagem e a memória, pois permite que circuitos neuronais específicos sejam fortalecidos ou enfraquecidos com base na experiência.
Genética e Comportamento
Hereditariedade, para Myers (1999), refere-se ao conjunto de processos biológicos que são responsáveis pela transmissão das características dos pais aos seus descendentes. A análise do autor sugere que, embora a genética determine grande parte da nossa constituição biológica, o ambiente e as experiências de vida desempenham um papel igualmente crucial na forma como essas características se manifestam, o que é particularmente evidente em contextos de diversidade cultural como Moçambique.
Cardoso, Frois & Fachada (1993) distinguem aqui dois tipos de hereditariedade:
- Hereditariedade Específica – refere-se às características comuns da mesma espécie, as que distinguem os indivíduos das outras espécies. Por exemplo, todos os seres humanos partilham a capacidade de linguagem e de pensamento abstracto, que nos distinguem de outras espécies.
- Hereditariedade Individual – apesar da existência de características comuns nos indivíduos, estes podem apresentar características particulares que os distinguem dos outros, como a cor dos olhos, a estatura, a inteligência ou a predisposição para certas doenças.
Genótipo é constituído por todos os caracteres, quer morfológicos, quer psicológicos, quer comportamentais – são características como altura, cor dos olhos, cor e tipo de cabelo, etc. Esse conjunto de material hereditário responsável pelo fenótipo, constituído pelo gene das células, denomina-se genótipo. O fenótipo, por sua vez, é a expressão visível do genótipo, influenciada pelo ambiente. Por exemplo, uma pessoa pode ter genes para uma estatura elevada, mas se sofrer de desnutrição na infância, pode não atingir a sua altura potencial, algo que tem relevância em Moçambique, onde a desnutrição infantil é uma preocupação de saúde pública.
"O conhecimento claro dos princípios básicos do mecanismo da hereditariedade permitirá compreender, justificar e resolver muitos dos problemas dos seres humanos nos mais diversos domínios da vida social tais como a educação, segurança social, o emprego, etc." (CARDOSO, FROIS & FACHADA, 1993, p. 155). Em Moçambique, o autor infere que este conhecimento é essencial para o desenvolvimento de políticas públicas de saúde e educação, incluindo a prevenção de doenças genéticas e a promoção de estilos de vida saudáveis.
Cromossomas sexuais
Por cromossoma, devemos entender o "elemento integrante do núcleo de cada célula transportador dos genes que são as unidades básicas da hereditariedade" (ABRUNHOSA & LEITÃO, 2009, p. 20).
O processo de transmissão de caracteres de pais à sua descendência designa-se por hereditariedade. Esta transmissão processa-se através da fecundação, isto é, da união do óvulo e espermatozoide. O óvulo fecundado é designado por ovo e constitui a primeira célula, e pelo processo da mitose vai-se dividindo até formar outras células que são constituintes do organismo. Em cada célula existe um núcleo com cromossomas formados por genes, que são os agentes portadores e transmissores de toda informação hereditária.
O número e a disposição de cromossomas estão definidos num cariótipo, que é o mesmo em todos os indivíduos da mesma espécie. O cariótipo humano apresenta 46 cromossomas dispostos em pares: 23 para cada origem (materna e paterna). Destes, 22 pares são autossomas (cromossomas não sexuais) e um par são os cromossomas sexuais (XX para o sexo feminino e XY para o sexo masculino), que determinam o sexo do indivíduo. A análise do autor sugere que a compreensão dos cromossomas sexuais é fundamental para entender questões relacionadas com a identidade de género e as diferenças biológicas entre os sexos, temas de crescente relevância no debate social e académico em Moçambique.
Os trabalhos sobre o estudo da hereditariedade mais conhecidos são os de Gregório Mendel, cujas experiências com ervilhas são famosas. Mendel estabeleceu as leis fundamentais da hereditariedade, demonstrando que os caracteres são transmitidos de forma discreta e previsível, lançando as bases da genética moderna. O autor infere que o legado de Mendel é particularmente relevante para a compreensão de doenças hereditárias que afectam populações moçambicanas, como a anemia falciforme, que tem uma prevalência significativa em certas regiões do país.
Exemplos Práticos e Aplicações
Exemplo 1: O arco reflexo na vida quotidiana – Quando uma pessoa em Marracuene pisa acidentalmente um prego, os neurónios sensoriais transportam a informação da dor até à espinal-medula, que activa imediatamente os neurónios motores para retirar o pé, antes mesmo de o cérebro processar conscientemente a sensação. Este mecanismo de protecção, que ocorre em milissegundos, ilustra a eficiência do sistema nervoso periférico e a importância da espinal-medula como centro de coordenação de reflexos.
Exemplo 2: Aprendizagem e memória – Quando uma criança em Boane aprende a andar de bicicleta, ocorrem alterações nas sinapses entre neurónios, fortalecendo as vias neurais que coordenam o equilíbrio e o movimento. Este processo de plasticidade sináptica, conhecido como potenciação de longa duração, é a base biológica da aprendizagem e da memória, demonstrando que a experiência molda fisicamente o cérebro.
Exemplo 3: Neurotransmissores e saúde mental – A compreensão do papel dos neurotransmissores como a serotonina e a dopamina tem levado ao desenvolvimento de medicamentos eficazes para o tratamento da depressão e da ansiedade em Moçambique. O autor infere que o acesso a estes tratamentos, embora ainda limitado nas zonas rurais, representa um avanço significativo na abordagem dos problemas de saúde mental no país.
Exemplo 4: Genética e identidade – O estudo dos cromossomas sexuais tem contribuído para a compreensão da diversidade humana, incluindo questões de identidade de género. Em Moçambique, o autor infere que o diálogo entre a ciência e as tradições culturais é essencial para abordar estas questões de forma sensível e informada, respeitando tanto os conhecimentos científicos como as realidades socioculturais locais.
