Fundadores Negligenciados da Sociologia: Harriet Martineau e Ibn Khaldun


Embora Augusto Comte, Émile Durkheim, Karl Marx e Max Weber sejam, sem dúvida, figuras fundadoras da sociologia, houve outros no mesmo período e em épocas anteriores cujas contribuições também deveriam ser levadas em conta. A sociologia, como muitos campos académicos, nem sempre cumpriu o seu ideal de reconhecer a importância de cada pensador cujo trabalho tenha mérito intrínseco. Pouquíssimas mulheres ou indivíduos de minorias raciais tiveram a oportunidade de se tornar sociólogos profissionais durante o período "clássico" do final do século XIX e começo do XX. Além disso, os poucos que tiveram a oportunidade de fazer pesquisa sociológica de importância duradoura foram negligenciados com frequência. Pensadores importantes como Harriet Martineau e o estudioso muçulmano Ibn Khaldun têm atraído a atenção de sociólogos nos últimos anos.

Harriet Martineau (1802-1876)

Harriet Martineau foi chamada "a primeira socióloga", mas, como Marx e Weber, não pode ser considerada apenas uma socióloga. Ela nasceu e foi educada na Inglaterra e escreveu mais de 50 livros, além de inúmeros ensaios. Martineau hoje recebe o crédito de ter introduzido a sociologia na Grã-Bretanha, com sua tradução do tratado de Comte Filosofia positiva, considerado a obra fundadora do campo. Além disso, Martineau fez um estudo sistemático em primeira mão da sociedade norte-americana durante suas prolongadas viagens pelos Estados Unidos na década de 1830, que é o tema do seu livro Society in America (Martineau 1962 [1837]).

Atualmente, ela é importante para os sociólogos por várias razões:

  • Primeiramente, ela argumentava que, quando se estuda uma sociedade, deve-se enfocar todos os seus aspectos, incluindo as principais instituições políticas, religiosas e sociais.
  • Em segundo lugar, ela insistia que a análise de uma sociedade deve incluir um entendimento das vidas das mulheres.
  • Em terceiro lugar, ela foi a primeira pessoa a colocar um olhar sociológico sobre questões antes ignoradas, incluindo o casamento, filhos, a vida doméstica e religiosa e relações raciais. Como escreveu uma vez: "o quarto das crianças, o boudoir e a cozinha são excelentes escolas para aprender os modos e maneiras de um povo" (1962 [1837]).
  • Finalmente, ela argumentava que os sociólogos podem fazer mais que apenas observar; eles também devem agir de maneiras que beneficiem a sociedade. Como resultado, Martineau foi uma ativa proponente dos direitos das mulheres e da emancipação dos escravos.

Ibn Khaldun (1332-1406)

O estudioso muçulmano Ibn Khaldun nasceu onde hoje fica a Tunísia e é famoso por seus estudos históricos, sociológicos e políticos. Ibn Khaldun escreveu muitos livros, sendo o mais conhecido sua obra em seis volumes, Muqqadimah ('Introdução'), concluída em 1378, e hoje considerada por alguns especialistas essencialmente como uma das obras fundadoras da sociologia. O Muqqadimah criticava as abordagens e métodos históricos existentes, que lidavam apenas com descrição, reivindicando, em vez disso, a descoberta de uma nova "ciência da organização social" ou "ciência da sociedade", capaz de chegar ao significado subjacente dos acontecimentos.

Ibn Khaldun criou uma teoria do conflito social baseada em entender as características centrais das sociedades "nómades" e "sedentárias" de sua época. Central à sua teoria era o conceito de "sentimento grupal" ou solidariedade (asabiyyah). Os grupos com um forte sentimento grupal eram capazes de dominar e controlar aqueles que tinham formas mais fracas de solidariedade interna.

Ibn Khaldun desenvolveu essas ideias na tentativa de explicar a ascensão e declínio dos Estados do Magreb e árabes e, nesse sentido, pode-se considerar que ele estudou o processo de formação do Estado – uma grande preocupação da sociologia histórica ocidental. As tribos nómades de beduínos tendiam a ter um forte sentimento grupal, que possibilitava que superassem e dominassem os residentes das cidades, sedentários e mais fracos, e estabelecessem novas dinastias. Contudo, os beduínos se estabeleceram em estilos de vida mais urbanizados e seu sentimento grupal e sua força militar, antes fortes, diminuíram, deixando-os novamente abertos a ataques de inimigos externos. Isso fechava um longo ciclo na ascensão e declínio dos Estados.

Embora os historiadores e sociólogos ocidentais do final do século XIX e começo do XX se referissem à obra de Ibn Khaldun, foi somente nos últimos anos que ela passou a ser considerada potencialmente significativa.

Reflexão Crítica

Que fatores podem explicar a omissão do trabalho sociológico de Harriet Martineau sobre o casamento, os filhos e a vida doméstica das mulheres no século XIX? Por que você acha que as ideias de Ibn Khaldun, do século XIV, estão encontrando um público novo no começo do século XXI?


📌 Fontes utilizadas neste artigo:
Giddens, Anthony (2012) – Sociologia, 6ª edição, Capítulo 1
Martineau, Harriet (1837) – Society in America
Ibn Khaldun (1378) – Muqqadimah


📚 Este artigo faz parte de uma série
👉 Leia a parte anterior: Abordagens Teóricas Modernas e Níveis de Análise em Sociologia
👉 Leia a próxima parte: O Estudo Clássico do Suicídio de Durkheim

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