Abordagens Teóricas Modernas e Níveis de Análise em Sociologia


Abordagens Teóricas Modernas

Os primeiros sociólogos estavam unidos em seu desejo de compreender as mudanças nas sociedades em que viviam. Porém, Durkheim, Marx e Weber empregaram abordagens bastante diferentes em seus estudos. Essas diferenças de abordagem persistiram através da história da sociologia. Mesmo quando os sociólogos concordam em relação ao tema de análise, eles muitas vezes fazem essa análise a partir de posições teóricas diferentes.

As três abordagens teóricas recentes analisadas a seguir – o funcionalismo, a abordagem do conflito e o interacionismo simbólico – têm conexões com Durkheim, Marx e Weber, respectivamente.

Funcionalismo

O funcionalismo diz que a sociedade é um sistema complexo, cujas várias partes atuam juntas para produzir estabilidade e solidariedade. Segundo essa abordagem, a disciplina da sociologia deve investigar a relação das partes da sociedade entre si e com a sociedade como um todo. Podemos analisar crenças e costumes religiosos de uma sociedade, por exemplo, mostrando como eles se relacionam com outras instituições dentro dela.

Estudar a função de uma prática ou instituição social é analisar a contribuição que aquela prática ou instituição traz para a continuidade da sociedade. Os funcionalistas, incluindo Comte e Durkheim, costumavam usar uma analogia orgânica para comparar a operação da sociedade com a de um organismo vivo. Eles argumentam que as partes da sociedade funcionam juntas, assim como as várias partes do corpo humano, para benefício da sociedade como um todo.

O funcionalismo enfatiza a importância do consenso moral, por manter a ordem e a estabilidade na sociedade. O consenso moral existe quando a maioria das pessoas de uma sociedade compartilha dos mesmos valores. Os funcionalistas consideram a ordem e o equilíbrio como o estado normal da sociedade.

Robert K. Merton (1910-2003) fez uma distinção entre as funções manifestas – aquelas conhecidas e pretendidas pelos participantes de um determinado tipo de atividade social – e as funções latentes – consequências dessa atividade das quais os participantes não estão cientes. Merton também distinguia entre funções e disfunções – aspectos da vida social que desafiam a ordem existente.

Nos últimos anos, a popularidade do funcionalismo começou a diminuir, na medida em que suas limitações se tornam visíveis. Muitos pensadores funcionalistas enfatizavam indevidamente os fatores que levam à coesão social, em detrimento daqueles que geram divisão e conflito.

Perspectivas de Conflito

Como os funcionalistas, os sociólogos que empregam teorias de conflito enfatizam a importância de estruturas dentro da sociedade. Todavia, os teóricos do conflito rejeitam a ênfase do funcionalismo no consenso. Ao invés disso, eles destacam a importância das divisões na sociedade. Concentram-se em questões de poder, desigualdade e luta. Eles tendem a considerar a sociedade composta de grupos distintos, que buscam seus próprios interesses.

Uma abordagem influente na teoria do conflito é o marxismo, assim denominado por causa de Karl Marx, cujo trabalho enfatizava o conflito de classe. Em todas as suas versões, o marxismo difere da maioria das tradições em sociologia no sentido de que seus autores o consideram uma combinação de análise sociológica e reforma política.

Nem todas as teorias de conflito adotam uma abordagem marxista. Alguns teóricos do conflito também foram influenciados por Weber. O sociólogo alemão Ralf Dahrendorf (1929-) argumenta que os pensadores funcionalistas somente consideram um lado da sociedade – aqueles aspectos da vida social em que há harmonia e entendimento. Tão importantes, ou ainda mais, são as áreas marcadas por conflito e divisão. O conflito advém principalmente dos interesses diferentes que os indivíduos e grupos possuem.

Interacionismo Simbólico

O trabalho do filósofo social norte-americano G. H. Mead (1863-1931) teve uma importante influência no pensamento sociológico, particularmente por meio de uma perspectiva chamada interacionismo simbólico. O interacionismo simbólico parte de uma preocupação com a língua e o significado. Mead afirma que a língua permite que nos tornemos seres autoconcientes – cientes de nossa própria individualidade e capazes de nos enxergar de fora, como os outros nos veem.

O elemento-chave nesse processo é o símbolo. Um símbolo é algo que significa outra coisa. Mead argumentava que os seres humanos baseiam-se em símbolos e entendimentos compartilhados em suas interações. Como os seres humanos vivem em um universo simbólico rico, praticamente todas as interações entre indivíduos humanos envolvem uma troca de símbolos.

O interacionismo simbólico direciona a nossa atenção para os detalhes das interações interpessoais e como usamos para entender o que as pessoas dizem e fazem. Os sociólogos influenciados pelo interacionismo simbólico enfocam as interações presenciais nos contextos da vida cotidiana. Eles enfatizam o papel dessas interações na criação da sociedade e de suas instituições.

Um exemplo clássico de interacionismo simbólico é o estudo de Arlie Hotchschild, The Managed Heart (1983), que observou o treinamento de comissárias de bordo da Delta Airlines. Hotchschild chamou esse treinamento de "trabalho emocional" – o trabalho que exige que o indivíduo controle seus sentimentos para criar uma expressão facial e corporal que possa ser observada publicamente.

Níveis de Análise: Microssociologia e Macrossociologia

O estudo do comportamento cotidiano em situações de interações pessoais costuma ser chamado de microssociologia. Já a macrossociologia é a análise de sistemas sociais de grande escala, como o sistema político ou a ordem econômica. Ela também compreende a análise de processos de mudança de longo prazo, como o desenvolvimento do industrialismo.

À primeira vista, pode parecer que a microanálise e a macroanálise são distintas, mas, na verdade, as duas estão intimamente conectadas. A macroanálise é essencial se quisermos entender a base institucional da vida cotidiana. Os microestudos, por sua vez, são necessários para iluminar padrões institucionais amplos. A interação presencial é a base para todas as formas de organização social, não importa o tamanho da escala.

As pessoas não vivem suas vidas como indivíduos isolados, e nem suas vidas são determinadas completamente por Estados nacionais. A sociologia nos conta que a nossa vida cotidiana é vivida em famílias, grupos sociais, comunidades e bairros. Nesse nível – o nível meso (ou "médio") da sociedade – é possível enxergar as influências e os efeitos de fenômenos nos níveis micro e macro. Muitos estudos sociológicos sobre comunidades locais específicas lidam com o impacto macrossociológico de grandes mudanças sociais, como a industrialização e a globalização econômica.

Por que Estudar Sociologia?

A sociologia tem várias implicações práticas para as nossas vidas:

  • Consciência de diferenças culturais – permite enxergar o mundo social a partir de perspectivas variadas. Políticas práticas que não se baseiam em uma consciência informada dos modos de vida das pessoas terão pouca chance de sucesso.
  • Avaliação de iniciativas políticas – a pesquisa sociológica proporciona ajuda prática para avaliar os resultados de iniciativas políticas, identificando consequências não intencionadas.
  • Autoesclarecimento – quanto mais soubermos sobre por que agimos como agimos e sobre o funcionamento geral da sociedade, mais prováveis seremos de influenciar o nosso futuro.
  • Reforma social prática – grupos esclarecidos podem se beneficiar com a pesquisa sociológica, usando as informações obtidas para responder de maneira efetiva a políticas governamentais ou criar iniciativas próprias.

Com frequência, há uma conexão entre o estudo de sociologia e o despertar da consciência social. Nenhuma pessoa sociologicamente sofisticada pode ignorar as desigualdades que existem no mundo atualmente. Seria estranho se os sociólogos não assumissem lados em questões políticas, e seria ilógico tentar bani-los de usar seu conhecimento para tal.

A sociologia não é apenas um campo intelectual abstrato, mas tem importantes implicações práticas para a vida das pessoas. A melhor maneira de garantir que isso não ocorra é abordar o tema de um modo imaginativo e relacionar as ideias e resultados sociológicos com situações que ocorrem na sua própria vida. Desse modo, você deve aprender coisas importantes sobre si mesmo, sobre a sua sociedade e sobre o mundo humano mais amplo.


📌 Fontes utilizadas neste artigo:
Giddens, Anthony (2012) – Sociologia, 6ª edição, Capítulo 1
Merton, Robert K. – Teoria Funcionalista
Dahrendorf, Ralf (1959) – Class and Class Conflict in Industrial Society
Mead, G. H. – Interacionismo Simbólico
Hotchschild, Arlie (1983) – The Managed Heart


📚 Este artigo faz parte de uma série
👉 Leia a parte anterior: O Desenvolvimento do Pensamento Sociológico: Os Fundadores

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